sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Atrás da porta

Disse o Mar: meu tempo tem muitos silêncios e um grande e permanente ruído; um zumbido. Apito eterno que me faz lembrar e esquecer. É nos silêncios, quando esqueço o som que me acorda, que dedilho as cordas do vento que vem do Pântano, margeando a Ilha, sussurrando para as folhas a maciez da água; a rispidez da pedra; a mão que abana a falta de ar durante a brisa gelada; a ausência. É o vento quem traz notícias, o cheiro, a cor do quase final de tarde que, inusitado, arredio, expõe-se sem nome, sussurrado apenas, mesmo no meio da luz da Primavera. Poderia ser saudade, se algo pudesse descrever o que saudade é na verdade, senão um vazio cheio de nada, ardido, e um prato de onde, pelas bordas, escorre uma ausência que se sente.

Disse a Nuvem: as horas me perdem, perco-as sem ver após as curvas as curvas da Ilha, senão respingos de água depois de amassados contra a praia. Mas ainda há sol além do dia; resta um beijo que nunca será; uma carícia escondida atrás da porta; inúmeros sentimentos sob a cama, acomodados delicadamente junto aos medos.

Olharam-se atordoados. Feitos um do outro, nunca serão o mesmo.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Ventania

do pântano
nervosa e indecisa
entre certa e arrependida
dançou
sem soltar as amarras
e mesmo chamada ao beijo do mar
arremessou grilhão cravado
na hora

Despertou?

Trouxe uma nudez quieta, tostada em gotas:
provocação entre a abertura da janela e a pouca iluminação
entre um beijo, longo, quente, mordido
e a face contraída, exaltada, arremessando-se
para um infinito decimal
Chamada na hora marcada
saltou da porta
nervosa
indecisa
contraída ainda
levada pela ventania de um sul

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Previsão do tempo

A fila dupla de carros e ônibus estacionou a Mauro Ramos a partir das 16 horas de ontem. É um treinamento. Uma preparação para o Verão que se anuncia pela luminosidade, aragem e o olhar aflito da estudante de pernas de fora que atravessou ruas e ainda conseguiu subir no ônibus em frente ao Instituto Estadual de Educação. Sem aquele mal súbito de mobilidade e a partir de agora frequente, estaria em pé na parada esperando o próximo Lagoa. E esperaria demais. Mas mesmo assim se benzeu depois de passar o cartão magnético que abria a catraca e assegurava o passaporte para uma bela paisagem. O agradecimento tem um motivo: não precisaria atravessar a ponte. E muito menos andar na BR-282. E ir a Coqueiros ou ao Estreito, ou Palhoça, São José, Biguaçu ou Paulo Lopes àquelas horas de quase final de dia, e de qualquer dia. Benzeu-se porque seguia para casa e veria no alto do Morro, quando as luzes das estrelas já estivessem sumindo, submetidas às luzes da cidade, todos aqueles turistas rindo, gravando imagens em seus celulares e postando estas imagens nas redes sociais. Eles depois iriam para a Rendeiras e seus carros andando vagarosamente fariam a mobilidade transforma-se em imobilidade da Barra, passando pela Mole, com efeitos até a Joaquina. Ela, com o ônibus andando às sacudidas, esperava descer logo o morro e chegar em casa e tirar os sapatos, e tomar um banho, e comer qualquer coisa, e deitar no sofá e dormir com a televisão ligada. E amanhã de manhã acordar, tomar uma banho, beber um café feito no microondas, calçar os sapatos largados ao lado do sofá e correr até o terminal, e subir num ônibus quase lotado, e subir o morro lentamente de volta ao Centro, benzendo-se para que nenhum carro quebrasse na subida. Lá no alto estariam os mesmos turistas da noite, clicando, clicando, rindo alto e saudando a natureza tão bela. E aquele ônibus passando, vagarosamente passando, carregando semblantes dos trabalhadores de rostos já cansados porque caminharam quadras e mais quadras até o terminal, porque saíram da Costa da Lagoa antes do sol raiar e já sacudiram os estômagos nos barcos; rostos colados nas janelas querendo aquela liberdade, e mães cansadas segurando filhos no colo, e ela reclamando que as janelas não abrem, e que o calor é infernal àquelas horas da manhã. Mas tem sempre um motivo para chamar a bênção. Pelo menos não teria que ir para o Continente naquele dia ou em qualquer outro dia.