Madrugadas e ventanias. Fadas e ruídos. Incômodos zumbidos. Palavras em livros. Vida nas palavras.
quarta-feira, 27 de maio de 2015
Chuva
jogaram água na Hercílio ao ponto de poças enfileirarem-se em riachos e a mulher de cabelos amarelos espirrar gotas e mais gotas para todos os lados e para as pernas de suas calças brancas enquanto caminha. já não tem mais quem dê conta de folhas caídas com os ventos e com as chuvas, e os as bocas-de-lobo estão encobertas com uma pasta de lodo e folhas, e a mulher do mercado da esquina já não dorme tão tranquila, mesmo fechando a entrada de vidro com uma parede de aço de um metro de altura, presa a dois vergalhões para suportar o peso da água do rio assim que ele sair do leito e vazar pela avenida. de cima do paredão preparam-se câmeras para registrar os efeitos de tanta água. esperam enquanto cozinham macarrão e bebem café frio, torcendo para que a chuva encha as garagens e proporcione chocantes imagens. por enquanto, os olhares mais frios se voltam para as trabalhadoras da Comcap, que não dão conta de manter a avenida bem limpinha e os bueiros abertos com suas pesadas vassouras e seus carrinhos sempre cheios do lixo que os transeuntes deixam pelo caminho. no fim do dia, elas tomam uma aspirina e sentam em ônibus lotados para voltar para casa, onde encaixam as vassouras de palhas nas mãos e as sentem leves como pluma. por certo depois sonham com a cidade e que amanhã tudo o que retiraram das ruas estará de novo lá, como um castigo.
sexta-feira, 10 de abril de 2015
Tristeza
ruídos mastigados de dentes rangendo e rangendo as gengivas e as línguas e os sangues coagulados nos sisos e dos olhos talvez lágrimas escorrendo para dentro abaixo da pele e penetrando nos vasos e endurecendo artérias e soldando um ou dois ou três pensamentos e as mãos espalmadas nas aparentes costelas no volvebatur do corpo amolecendo e as memórias ocupadas em segurar bolhas de ar coloridas que dançam diante da retina e quando se afastam explodem em luzinhas e somem em pontos escuros e ninguém escuta o ruído de dentes roendo dentes e os olhos abertos parados na janela e além da janela nos prédios sombrios e os olhos parados olhando aquilo e vendo nada e de dentro brotando universos em estalos elétricos consumindo a lágrima que nunca saiu e a tristeza tão triste que rói os dentes e range nas gengivas e escorre sobre a pele e penetra nas veias e entope de lágrimas e as mãos espalmadas buscam ar e bolhas e cores que se viram em cinzas e de dentro nascem borboletas e luzinhas de plenas vidas curtas e mutantes e mãos espalmadas buscam e buscam e buscam e as luzes se afastam e se retraem e desaparecem e os olhos se perdem nas janelas e nas sombras além delas morrendo e morrendo e morrendo.
terça-feira, 7 de abril de 2015
Torto
pequenas pedras no caminho entre um ponto e outro: fantasmas de um tempo da partida e um há-de-vir de uma chegada. pequenos cacos pontudas de vidro no caminho e entre os dedos dos pés lascas de pele em um corpo entorpecido, desemparelhado entre a noite e o dia, ou entre a luz e a sombra, ou entre o bem e o mal. ou entre o nada e o nada. pequenos sentimentos no caminho, esfarelados na fala que imita folhas de rosto de trabalhos escolares enquanto a matilha se aprisiona e para manter a prisão alucina-se imperdoavelmente e espera que as correntes tragam perdão. perdão. vai-se o chão em buracos cheios de alucinações todos os dias. um copo de água e uma pílula estragam a alma e repõem viseiras.
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