Madrugadas e ventanias. Fadas e ruídos. Incômodos zumbidos. Palavras em livros. Vida nas palavras.
terça-feira, 28 de junho de 2016
Ondas
arranquei as ondas selvagens e salgadas e impetuosas de minhas veias e suas raízes ainda tentaram respirar soltando-se em ramas de minhas imensas narinas. não era ar que procuravam, e sim mais águas revoltas e profundas, como as do Estreito Augusto César, para se espalhar como os humanos se espalham em abraços simplesmente por abraçar. as ondas se foram em ondas de dentro de mim, e do centro, olhando-as, quanto mais perto das bordas da terra, menos energia, menos sal, menos tudo. agora, desatado dos cordames, chamo sereias.
terça-feira, 21 de junho de 2016
Tinta
meus dedos manchados de tinta tocam as bordas da lua e os meus lábios murmuram teias junto aos teus ouvidos. do outro lado da janela a bicicleta amarela passa pra lá e pra cá e depois muda de rumo e some dentro da floresta. assim desse jeito nunca mais a verei e na lembrança haverá apenas um filme de 4 ou 5 segundos, enquanto a bicicleta amarela passa atrás dos vidros sujos de pó. nem sei mesmo se com o decorrer da primeira ou da segunda semana o que a minha mente vê será essa verdade. ou se o que vejo é uma mistura de imagens de uma propaganda de pipoca e a minha vontade de pedalar por aí. meus dedos manchados de tinta vermelha tocam as bordas da lua e meu estômago ronca de fome e meus lábios gemem de dor e alegria desfazendo as teias dos teus cabelos
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
Acordes
perpendicular com a Lua minha sombra se esquivou de uma esquina e um buraco pisou no meu pé, e crescente, meu rosto iluminou o giroflex do poste. fui preso por desacato - andei em desalinho; somente poderia ter curvado meu corpo esquálido e enorme em linhas paralelas ao Sol. e também porque fiquei naquele silêncio boreal diante de tanto amor registrado nos campos de batalha. a prisão até que não é ruim. a comida é boa como a de um restaurante universitário; e as mulheres! Hummm! as mulheres! todos lamentam que o vinho rosé gelado e frisante dos finais de tarde seja servido em copos comuns. dali, daquele ponto mais alto na beira do mar, ouvindo as tristonhas batidas de ondas apaixonadas contra a areia que as impedem de chegar, registramos o sol chamuscando a linha do horizonte em nossos chips embutidos, enquanto do lado de fora das grades homens estão presos aos seus trabalhos, mulheres às suas vidas e crianças em suas escolas, que os ajudarão a ser adultos, pessoas normais que reclamam da especulação imobiliária em suas praias mas investem em construções nas praias dos outros. perpendicular com a Lua, minha sombra se esquivou de mim mesmo e me perguntou se sou um sujeito bom ou ruim e se meu amor ainda resiste. enquanto pensava sobre os assuntos, um buraco pisou no meu pé. então meu Sol se abriu e religou o giroflex do poste. fui preso. fiquei preso. quero sempre esta prisão!
quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
Às 4h44min
Às 4h44min de ontem acordei e aqueles imensos olhos pesavam sobre o meu peito. Às 4h44min de hoje, quando um tiro no filme da TV clareou o quarto, meu peito ardeu e eu acordei. Aqueles imensos olhos pesavam sobre o meu peito. Pude ver todas as curvas de suas íris e eles me olhavam como se estivessem ali, fixados nos meus, a noite toda. Eu estivera dormindo porque lembro apenas de o relógio da TV marcar 4h44min da madrugada e sentir o peso daqueles olhos sobre o meu peito, afundando os meus pulmões, comprimindo minhas costelas, e eu ofegante, sem entender nada naqueles primeiros instantes e depois ver os intermináveis círculos dentro das íris e me ver neles como em espelhos côncavos e convexos. Às 4h44min de ontem e de hoje despertei com olhos esbugalhados querendo se enfiar dentro dos meus olhos e chupando todo o ar em volta de minha cabeça. Eu tentei saltar para fora da cama, mas não encontrei as minhas pernas.
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
Disseram que vou morrer se ficar sem meus sapatos
Disseram que vou morrer se ficar sem meus sapatos. Estava chovendo e fui até a padaria ver uma torta alemã. Não tinha torta e a padaria estava fechada. Era domingo. E chovia. E na esquina perdi um cadarço dentro de uma boca-de-lobo entupida. Juro que chorei misturando minhas lágrimas aos pingos da chuva e tudo era quase do mesmo tamanho, os pingos daquela maldita chuva de Primavera e minhas lágrimas de dor, e então pensei em você dançando sobre o próprio ventre. E a água escorria do céu vertendo na minha garganta junto com as minhas lágrimas. Perdi somente um cadarço na boca-de-lobo.
Disseram que vou morrer se ficar sem meus sapatos. Era um sol de rachar e saí andando por aí como sempre faço quando me esqueço de mim. Deixei a chave na fechadura. Foi pelo lado de dentro, eu juro. Enfiei um bilhete pelas ranhuras da porta explicando o que deveria fazer quando voltasse. Se voltasse, porque minha ideia foi caminhar em linha reta e enterrar meus sapatos nas dunas e depois no lodo e depois no mar até eu me esquecer para sempre de mim mesmo. Mas era um sol de rachar e minha cabeça ferveu e esvaziou rápido, tão rápido que sequer cheguei na esquina. E foi ali que pisei no outro cadarço e o arranquei do sapato. Foi um gesto tão rápido e com tanta força que minha mão quase descolou do punho, o punho do antebraço, e o meu braço do meu ombro. Juro que foi com essa força. Com tanta força que o cadarço voou para dentro dos muros da igrejinha e meu punho ficou preso no arame farpado sobre o muro. Fiquei ali pendurado. Fiquei ali pendurado. A minha cabeça pegando fogo e meus pés balançando no ar. Quase a mesma sensação de quando te vejo dançando sobre o próprio ventre e as sombras alongadas de teus seios.
Disseram que vou morrer se ficar sem meus sapatos. E nesse dia em que as nuvens se enfiam em nossos umbigos em pingos longos e finos e leves, como a pele que escama depois de horas na areia e nas luas de Naufragados, arranco os sapatos de suas fôrmas e os trituro com os dentes ardendo de pimenta e molhados com sangue dos teus ombros. Ateio fogo ao mundo em volta e espero a sina de que morrerei sem eles. Disseram isso, juro. Que seria uma infindável tristeza e pagamento, imensos e inesgotáveis elos e correntes que se ajustam e desajustam em meus punhos e tornozelos, torneados por torniquetes abrasivos.
Os sapatos se foram calcinados e eu parti com minhas meias furadas sobre as pedras redondas ribeirinhas, chapinhando o dorso da água. Disseram que vou morrer se ficar sem os meus sapatos. De fato, em inesperado dia, minhas ilusões se encontrarão com meus devaneios e dançarei sobre as sombras das paredes, tentando alcançar o teu ventre e os ecos dos teus seios.
Dançarei na chuva e nas areias, e me chamarei de volta para dentro dos meus sapatos. E esperarei a profecia de que sem eles morrerei, e desafiarei novamente, primeiro sonhando em furar as nuvens sem os pés, depois mergulhando com os olhos abertos em uma caixa de areia, e depois de segurar um gato bravio e ouvir o primeiro ranger de dentes, e esfolar o corpo na casca de uma árvore e segurar um rojão que detona minhas sardas, e ver o tempo mudar meus cabelos loiros, e ver meus cabelos nunca se tingirem completamente com a inclemência da idade, e ver-me verme. E depois decidirei o que fazer, se toco fogo em meus sapatos ou mergulho com eles na baía.
Disseram que vou morrer se ficar sem meus sapatos. Era um sol de rachar e saí andando por aí como sempre faço quando me esqueço de mim. Deixei a chave na fechadura. Foi pelo lado de dentro, eu juro. Enfiei um bilhete pelas ranhuras da porta explicando o que deveria fazer quando voltasse. Se voltasse, porque minha ideia foi caminhar em linha reta e enterrar meus sapatos nas dunas e depois no lodo e depois no mar até eu me esquecer para sempre de mim mesmo. Mas era um sol de rachar e minha cabeça ferveu e esvaziou rápido, tão rápido que sequer cheguei na esquina. E foi ali que pisei no outro cadarço e o arranquei do sapato. Foi um gesto tão rápido e com tanta força que minha mão quase descolou do punho, o punho do antebraço, e o meu braço do meu ombro. Juro que foi com essa força. Com tanta força que o cadarço voou para dentro dos muros da igrejinha e meu punho ficou preso no arame farpado sobre o muro. Fiquei ali pendurado. Fiquei ali pendurado. A minha cabeça pegando fogo e meus pés balançando no ar. Quase a mesma sensação de quando te vejo dançando sobre o próprio ventre e as sombras alongadas de teus seios.
Disseram que vou morrer se ficar sem meus sapatos. E nesse dia em que as nuvens se enfiam em nossos umbigos em pingos longos e finos e leves, como a pele que escama depois de horas na areia e nas luas de Naufragados, arranco os sapatos de suas fôrmas e os trituro com os dentes ardendo de pimenta e molhados com sangue dos teus ombros. Ateio fogo ao mundo em volta e espero a sina de que morrerei sem eles. Disseram isso, juro. Que seria uma infindável tristeza e pagamento, imensos e inesgotáveis elos e correntes que se ajustam e desajustam em meus punhos e tornozelos, torneados por torniquetes abrasivos.
Os sapatos se foram calcinados e eu parti com minhas meias furadas sobre as pedras redondas ribeirinhas, chapinhando o dorso da água. Disseram que vou morrer se ficar sem os meus sapatos. De fato, em inesperado dia, minhas ilusões se encontrarão com meus devaneios e dançarei sobre as sombras das paredes, tentando alcançar o teu ventre e os ecos dos teus seios.
Dançarei na chuva e nas areias, e me chamarei de volta para dentro dos meus sapatos. E esperarei a profecia de que sem eles morrerei, e desafiarei novamente, primeiro sonhando em furar as nuvens sem os pés, depois mergulhando com os olhos abertos em uma caixa de areia, e depois de segurar um gato bravio e ouvir o primeiro ranger de dentes, e esfolar o corpo na casca de uma árvore e segurar um rojão que detona minhas sardas, e ver o tempo mudar meus cabelos loiros, e ver meus cabelos nunca se tingirem completamente com a inclemência da idade, e ver-me verme. E depois decidirei o que fazer, se toco fogo em meus sapatos ou mergulho com eles na baía.
sexta-feira, 11 de setembro de 2015
Sala escura
no sofá afundado ele afundado no sofá foi ao fundo de si e pelo vidro sujo da janela olhou a superfície dos seus olhos refletida no morro. o que viu? o que viu? fechou os olhos e dormiu! o que viu? o que viu? fechou os olhos e partiu. deixou parte afundada no sofá afundado e outra pelas íris escapou do fundo do fundo de si. veio para a superfície, para a frente e para os lados e lá, no fundo do fundo do sofá afundado pouca coisa restou. o que restou? o que ficou? bem pouco, bem pouco, tão pouco que ele encostou os olhos no vidro sujo da janela e no morro não viu as pipas, nenhuma luz ou o clarão antes dos estouros dos fogos. ficou apenas ali, no vidro sujo, deixando parte de si afundado no sofá afundado.
quinta-feira, 23 de julho de 2015
Coisas improváveis
O homem saiu do mercado e pisou sobre o cadarço branco. Viu logo adiante uma parede com um vão curto que pensou em usar como apoio para dar o laço no cadarço. Mas não pôde. Passava uma multidão de estudantes barulhentos em protesto que o levou junto até quase a esquina da Tenente Silveira. Quando conseguiu se livrar, apoiou o pé no degrau da loja de roupas finas masculinas. De dentro da loja saía um casal discutindo sobre o valor das compras. O homem curvado buscava a outra ponta do cadarço quando foi atingido na cabeça por uma barriga avantajada. Foi como ter sido atingido por uma mola. Deu o primeiro passo para trás e quando colocava o outro pé no chão para ficar ereto e não se estatelar no meio da rua, pisou no cadarço desamarrado. Rodopiou, raspando em uma placa amarela de desvio de trânsito para a execução de uma obra pública. Era meio-dia. Os operários estavam almoçando. E o bueiro estava sem tampa.
quarta-feira, 8 de julho de 2015
Temporal
vomitou manteiga ao deslizar dez dedos compridos e finos e frios e quase transparentes sobre a pele abdominal embrulhada em frisos e mais frisos de tempos passados - os que ainda virão pronunciam salientes cordames no pescoço.
inchado de manteiga abatumada no esôfago e vômito engolido nas golfadas de ar que buscava vida enfia os dedos severamente por entre os lábios da mulher e os torce como uma tenaz de uma lado a outro da boca, cutucando razoavelmente as paredes úmidas das bochechas, de onde vaza um líquido marrom.
olha catatônico e resfolegando, a traqueia trancada por uma cola de cuspe, manteiga e catarro, e ao cair, os dedos dobram e entalam na garganta de Isabel, e ela esperneia a falta de ar enquanto uma mortalha de fagulhas ilumina as pupilas profundamente azuis.
um cão pulguento rasteja e adormece ao lado dos corpos, lambendo as feridas.
inchado de manteiga abatumada no esôfago e vômito engolido nas golfadas de ar que buscava vida enfia os dedos severamente por entre os lábios da mulher e os torce como uma tenaz de uma lado a outro da boca, cutucando razoavelmente as paredes úmidas das bochechas, de onde vaza um líquido marrom.
olha catatônico e resfolegando, a traqueia trancada por uma cola de cuspe, manteiga e catarro, e ao cair, os dedos dobram e entalam na garganta de Isabel, e ela esperneia a falta de ar enquanto uma mortalha de fagulhas ilumina as pupilas profundamente azuis.
um cão pulguento rasteja e adormece ao lado dos corpos, lambendo as feridas.
Foto André Kertész (1894 - 1985)
segunda-feira, 8 de junho de 2015
Cordas
As folhas das árvores da Hercílio ainda entopem os bueiros menores. Vai-se quase uma semana de sol do veranico de Maio que chegou em Junho. Em breve uma onda de frio e vento gelado tirarão as mulheres e seus cãezinhos do caminho das bicicletas. Os ciclistas também não aparecerão depois das 18h, quando as rajadas de noite espantam todos para dentro das paredes. Ninguém sentará nos bancos da avenida para ver o movimento na hora da ave-maria. As janelas do paredão ficarão iluminadamente imponentes. E os gritos dos pneus dos carros dirigidos pelos desatentos serão guardado para a próxima estação. Comprarei uma corda maior no Daora. Amarrarei minhas pernas para me livrar do pesado Inverno. Como tantos outros, ele virá e partirá, deixando e levando alguns pedaços, amassando mais algum vinco da pele ou anestesiando mais alguma memória. E depois as folhas ressurgirão com encantamento, recobrindo a Hercílio, refazendo as sombras. Quantos metros de corda terei que comprar para que o Inverno não me arraste?
quarta-feira, 27 de maio de 2015
Chuva
jogaram água na Hercílio ao ponto de poças enfileirarem-se em riachos e a mulher de cabelos amarelos espirrar gotas e mais gotas para todos os lados e para as pernas de suas calças brancas enquanto caminha. já não tem mais quem dê conta de folhas caídas com os ventos e com as chuvas, e os as bocas-de-lobo estão encobertas com uma pasta de lodo e folhas, e a mulher do mercado da esquina já não dorme tão tranquila, mesmo fechando a entrada de vidro com uma parede de aço de um metro de altura, presa a dois vergalhões para suportar o peso da água do rio assim que ele sair do leito e vazar pela avenida. de cima do paredão preparam-se câmeras para registrar os efeitos de tanta água. esperam enquanto cozinham macarrão e bebem café frio, torcendo para que a chuva encha as garagens e proporcione chocantes imagens. por enquanto, os olhares mais frios se voltam para as trabalhadoras da Comcap, que não dão conta de manter a avenida bem limpinha e os bueiros abertos com suas pesadas vassouras e seus carrinhos sempre cheios do lixo que os transeuntes deixam pelo caminho. no fim do dia, elas tomam uma aspirina e sentam em ônibus lotados para voltar para casa, onde encaixam as vassouras de palhas nas mãos e as sentem leves como pluma. por certo depois sonham com a cidade e que amanhã tudo o que retiraram das ruas estará de novo lá, como um castigo.
sexta-feira, 10 de abril de 2015
Tristeza
ruídos mastigados de dentes rangendo e rangendo as gengivas e as línguas e os sangues coagulados nos sisos e dos olhos talvez lágrimas escorrendo para dentro abaixo da pele e penetrando nos vasos e endurecendo artérias e soldando um ou dois ou três pensamentos e as mãos espalmadas nas aparentes costelas no volvebatur do corpo amolecendo e as memórias ocupadas em segurar bolhas de ar coloridas que dançam diante da retina e quando se afastam explodem em luzinhas e somem em pontos escuros e ninguém escuta o ruído de dentes roendo dentes e os olhos abertos parados na janela e além da janela nos prédios sombrios e os olhos parados olhando aquilo e vendo nada e de dentro brotando universos em estalos elétricos consumindo a lágrima que nunca saiu e a tristeza tão triste que rói os dentes e range nas gengivas e escorre sobre a pele e penetra nas veias e entope de lágrimas e as mãos espalmadas buscam ar e bolhas e cores que se viram em cinzas e de dentro nascem borboletas e luzinhas de plenas vidas curtas e mutantes e mãos espalmadas buscam e buscam e buscam e as luzes se afastam e se retraem e desaparecem e os olhos se perdem nas janelas e nas sombras além delas morrendo e morrendo e morrendo.
terça-feira, 7 de abril de 2015
Torto
pequenas pedras no caminho entre um ponto e outro: fantasmas de um tempo da partida e um há-de-vir de uma chegada. pequenos cacos pontudas de vidro no caminho e entre os dedos dos pés lascas de pele em um corpo entorpecido, desemparelhado entre a noite e o dia, ou entre a luz e a sombra, ou entre o bem e o mal. ou entre o nada e o nada. pequenos sentimentos no caminho, esfarelados na fala que imita folhas de rosto de trabalhos escolares enquanto a matilha se aprisiona e para manter a prisão alucina-se imperdoavelmente e espera que as correntes tragam perdão. perdão. vai-se o chão em buracos cheios de alucinações todos os dias. um copo de água e uma pílula estragam a alma e repõem viseiras.
terça-feira, 24 de março de 2015
Mar aberto
"muchacha pechos de miel, no corras más,
quedaste hasta el dia..."
a menina corre na praia junto com o entardecer e o vento empurra suas curvas para dentro da água gelada e seus pés quebram ondas miúdas e das pequenas ranhuras das quebraduras na imensidão salgada nascem bolhas, sussurros e saliva que se desprendem do universo e somem em grandes e pequenas imensidões salgadas. a menina corre na praia sem tocar a areia, e quebra pequenas ondas com as curvas do corpo, e seus seios pequenos e doces acalmam as nuvens que ainda rodopiam no horizonte do vento naufragado. mas mesmo assim o céu esfumaçado e pesado ruge. a menina rompe o mar e as ondas que pretendiam se erguer violentas amolecem. o mar aberto e gelado acolhe arrepios cerebrais. a ventania se desprende em riscos de luz e batidas eternas na pele, e a cabeça se perde entre o céu e a terra, e uma onda gigante entra pelos dedos e se destrói em cargas e descargas elétricas que arrebentam a realidade. o corpo molhado lamenta um sorriso e morre.
terça-feira, 10 de março de 2015
A Morte do Pingo d'Água
Foi bem na aurora do dia, aquela hora mais fria, que ouvi o sapo cantar. Era tanta água caindo, tanta água escorrendo que no pátio deu pra nadar. Mas foi o primo do Oliveira, entregador de tomates e cebolas, quem fez meu cabelo arrepiar. Puxou adaga, pistola e machado e dentro dos pingos d'água um buraco começou a fuçar. Descarregou o tambor da pistola. Abriu brechas com o fio do machado. Mas foi com a arma mais curta, certeira e fina que o coração de um pingo foi encontrar. Com terror nos olhos, o assassino cutucou um pequeno cutuco e o pingo numa charla deitou-se a cantar e quanto mais entrava o punhal mais o pingo conversava com quem não estava lá. Foi falando e foi falando e quase um ano e tanto se passou. Só não houve mais tempo porque até o fim do cabo o punhal entrou. Foi bem na aurora daquele dia, a hora mais fria, de arrepiar, quando o bem-te-vi sequer pia e a coruja já não está, que a saparia danada pô-se a cantar. Desafinada. O punhal que furou o pingo também furou o ar, e o meu dedo, e diferente da gota d'água eu parei de cantar. Foi até o punhal danado dar uma volta e meia e a gota dilacerar, e escorrer pelo fino fio da navalha e também pela ponta do cabo, e os dedos do assassino molhar. Estrebuchado e despencando, o pingo de chuva se foi, mas foi sorrindo maroto com o feito que deixou. E eu, ferido no dedo, chorei pelo dedo ferido e pelo sangue que pingou. E você, de armas em punho, riu até cambalear, gritando a todo o universo o feito que marcou: com adaga traiçoeira o pingo d'água matou. E justo aquele que regaria o pé de feijão de Maria!
quarta-feira, 4 de março de 2015
Interiores azedos
Olhava meus pedaços amontoados. Alguns eram só metades de ontem. Esquisitos. Submersos. Rascunhos. Nem a bela chuva que risca o céu e nem o céu que risca a vida me deram avisos de você. Só as plantinhas crescendo encostadas num muro, no mesmo lugar em que me amontoei. Deve ser a Primavera que corre pra me encontrar no calendário, rindo dos ótimos dias em que não existi!
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
Grossas Nuvens de Sol no Guarda-chuva de Elena
Pequenos tomateiros enfiados no chão arenoso, amparados por tijolos empilhados, grudados com cola, pintados de branco por onde escorre a água translúcida da chuva, observados por antigas árvores e um pássaro que grasna para a madrugada. O bem-te-vi canta de tempos em tempos, e coça e revira e arranca penas que deixou nas estrelas do céu do Campeche. Vez ou outra aparece um João de Barro... Ah!, esses joões que cantam fora de suas casas e dentro delas se ajoelham, imperdoáveis!!!
"Me respira, Humanidade, giram pó e cacos (de memórias e carne de braços e corações) enquanto o Sol espana com furor a total superfície do planeta (e eu aqui, olhando os tomateiros que morrem quase ao final do Verão). Sob uma pedra meio aberta, um conjunto de poemas em folhas de diversas cores sorri ao incendiar-se a partir das bordas (esvai-se o tempo e embarcado nele, a verdade). Me respira, desoxigenado Mundo (e que eu entupa todos os teus caminhos, e nessas obstruções, dilarece as verdades, transformando-as em nada), o acorrentado ao trabalho, ao possuir, à falta de tempo, gritam as letras no exato momento em que fritam e se esvaem como uma réstia de carbono (e com as letras me vou, sucumbindo ao grito que não saiu, e morrendo no fundo dos olhos que esfriam). O Homem ergue as mãos em busca de ar e céu (e no céu, os tomateiros revigoram sem tomates, enfeitando potes que ficam pelos caminhos, e em cada pote amostras de cinzas de cada ser que há-de-vir), num ato primeiro e, depois, de joelhos e rendido e acorrentado e preso às poucas palavras que ainda balbucia, recomeça: (estava na esquina, como um ás de espada, fumando um cigarro enrolado com minhas memórias sonhadas e perversas, e mais malditas, memórias sussurradas ao pé do ouvido da maldade e da manipulação e da mentira, olhava a cidade que passava em filas e eu sempre fora delas, correndo parado, estralando os ossos de tanto peso e orgulho, sem nada para carregar nos ombros e nos braços. E em cada sono, recomeça: me respira, Humanidade, para que eu possa apagar numa combinação metabólica e reiniciar imitando a voz que sussurra!)
"Me respira, Humanidade, giram pó e cacos (de memórias e carne de braços e corações) enquanto o Sol espana com furor a total superfície do planeta (e eu aqui, olhando os tomateiros que morrem quase ao final do Verão). Sob uma pedra meio aberta, um conjunto de poemas em folhas de diversas cores sorri ao incendiar-se a partir das bordas (esvai-se o tempo e embarcado nele, a verdade). Me respira, desoxigenado Mundo (e que eu entupa todos os teus caminhos, e nessas obstruções, dilarece as verdades, transformando-as em nada), o acorrentado ao trabalho, ao possuir, à falta de tempo, gritam as letras no exato momento em que fritam e se esvaem como uma réstia de carbono (e com as letras me vou, sucumbindo ao grito que não saiu, e morrendo no fundo dos olhos que esfriam). O Homem ergue as mãos em busca de ar e céu (e no céu, os tomateiros revigoram sem tomates, enfeitando potes que ficam pelos caminhos, e em cada pote amostras de cinzas de cada ser que há-de-vir), num ato primeiro e, depois, de joelhos e rendido e acorrentado e preso às poucas palavras que ainda balbucia, recomeça: (estava na esquina, como um ás de espada, fumando um cigarro enrolado com minhas memórias sonhadas e perversas, e mais malditas, memórias sussurradas ao pé do ouvido da maldade e da manipulação e da mentira, olhava a cidade que passava em filas e eu sempre fora delas, correndo parado, estralando os ossos de tanto peso e orgulho, sem nada para carregar nos ombros e nos braços. E em cada sono, recomeça: me respira, Humanidade, para que eu possa apagar numa combinação metabólica e reiniciar imitando a voz que sussurra!)
terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
Fim de tarde
Era um filme de terror na TV e a Mauro Ramos estava trancada, e as ruas estavam trancadas desde as pontes e muito além. A garota da boate do outro lado da rua queria sair logo mas os carros na avenida não andavam. Ela queria sair para um compromisso de mil dólares em Jurerê. O caos das pontes atrapalhava sua ida mais ao Norte. Mas ela nem imaginava como estava a estrada além do Cemitério, aquele entroncamento funesto onde todos andam mais devagar e o tempo não passa. Os mil dólares dela virariam pó caso o trânsito não retomasse aquele ritmo do Inverno. Mas é Verão. Todos querem ir para qualquer lado antes que chegue o Vento Sul novamente. O calor estava de matar e a mulherzinha enfurecida chutou a porta do táxi. Avisou pelo telefone que nem de barco chegaria na hora. Os carros paralisaram desde as pontes e mais além. E no entrocamento do cemitério e mais além, no morro da Lagoa e muito antes de Santo Antônio. A cidade parada no trânsito. Era um filme de terror na TV ligada quando saí para a Hercílio Luz. Ali os cães e seus donos passeiam e as sombras do Paredão dão um enfeite de sombra de Inverno no final da tarde. E na padaria do Seu Zezinho tem pão saído do forno naquela hora.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Recitais
As pontas dos dedos escorregaram sobre as grandes curvas leitosas arrepiadas e as cicatrizes dos lábios se encontraram apertadas. Ela suspirou. Ele respirou. A janela olhava para fora escurecendo atrás da retina. Naquele mundo cinza, as pontas dos dedos escorregaram nos suspiros e respiros enquanto recitavam Florbela Espanca em sussurros.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
Bilhete
O vento levantou um voo rasante desde a baía sul e rodopiou sobre a Hercílio Luz. Veio trazendo abanadores de carnaval, confetes e serpentinas. Veio junto um bilhete amoroso em letra desenhada de uma certa Carla Carolina. O bilhete caiu num repente, como se o vento cessasse em um buraco. O vento continuava e buraco não existia. Havia o desejo do bilhete de ser lido. Foi lá na baía sul que o vento levantou como um rabo de cavalo árabe e rodopiou sem salamaleques sobre os prédios da justiça e trouxe o bilhete amoroso. Nele não tinha destinatário, apenas uma exclamação inicial, oh! amor!, e uma lista de reclamações sobre a falta de tempo, do ônibus superlotado, do preço da passagem, da falta de trabalho ou do trabalho extenuante, e de que tudo isso chegara ao fim porque ela, Carla Carolina, enchera o saco. Partiu. deixou nada a não ser o bilhete, para um amor que não teve.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
Janelas
Além da janela as janelas permanecem abertas dias e noites e as mulheres olham por elas e os homens olham por elas e as crianças não alcançam nas aberturas a não ser pisando nos pés de homens e mulheres. Olho mudo as janelas mudas e tristes que olham a minha janela. Os olhos nas janelas não têm rosto. São fumaças de todas as cores suspensas no paredão contínuo sobre a Hercílio Luz que não conseguem sair de suas gaiolas cheias buracos, aberturas e ranhuras. Um dia alguém abrirá a porta e o vento empurrará todos para a rua, e as janelas ficarão vazias. E eu olharei as janelas vazias pesado e suspenso pelo nada. Até que você abra a porta e deixe o vento entrar.
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