Transe
umidade transcendental
Permanente
diálogo lingual
Submissos
contornos alveolares
Tensionados
sob pressão salival
Ranhuras
arranhadas dentro das unhas
Espalmada
pele maculada aos sopros
Escorregadia
difusa na luz do fim do dia
Madrugadas e ventanias. Fadas e ruídos. Incômodos zumbidos. Palavras em livros. Vida nas palavras.
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Estado
ondaseletromagnéticasparafusadasnofimdoUniverso
(ÊxtaSe)
seladas
em liberdade febril
imagensarrepiadaspresasentreUniversos
(CONSTruÍDAS)
disformesamplasespásmicas
em provocados tormentos febris
hecatombeúnicoeternosegundal
(MORteVIDA)
arrastandoarrastadostemporaissemmemória
febreapenasfebril
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(MORteVIDA)
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terça-feira, 7 de outubro de 2014
Grossas Nuvens perfuram raios de Sol
me respira, Humanidade!, gritam pó e cacos enquanto o Sol espana com furor a total superfície do planeta. sob uma pedra, meio aberto, um conjunto de poemas em folhas de diversas cores sorri ao incendiar-se a partir das bordas. me respira, desoxigenado Mundo, acorrentado ao trabalho, ao dinheiro, ao possuir, à falta de tempo, gritam as letras no exato momento em que fritam e se esvaem como uma réstia de carbono. o Homem ergue as mãos na busca de ar e céu, num ato primeiro, e depois, de joelhos e rendido e acorrentado e preso às poucas palavras que ainda balbucia, recomeça:
Estou na esquina como um valete de copas. Intranqüilo, fumo um cigarro e puxo o tricô da sacolinha de plástico. Tranço as agulhas, desenozando a lã milimetricamente arrumada no novelo por uma máquina moderna de 1898. Quanto mais desfaço, desentrelaçando e pondo em duas retas paralelas metros e metros de lã, maior fica o meu blusão. Quase já nem serve em mim, de tão pequeno. Espero a chuva, que se anunciou num clarão de luz no horizonte, mas que logo se foi quando as nuvens negras, pesadas e grossas se ajuntaram sobre o lago, espelhadas num céu azul de anil. Não tem movimento na cidade deserta. Mais um carro passa a mil por aquela reta. Espatifa-se no muro e continua andando sem diminuir a velocidade. O motorista acena para o vazio, mandando, sorridente como em sua noite de núpcias, ninguém tomar no cu, e é vaiado pela platéia que comparece, alinhada e rota, àquela cerimônia fúnebre. O carro se vai, espalhando fumaça e poeira do asfalto, contornando a praça do centro da cidade em que a periferia toma conta, bebendo cachaça. Ao som da sinaleira da Leonel Mosele com a Marechal, dançam salsa, e com suas roupas de pingüim, esvaem-se em contorções de valsa. Sobre o imenso capim da praça, rente ao chão, as gralhas simulam o primeiro vôo, uma batida estratégica de retirada, voltando ao ninho para matar a saudade de um lugar que nunca saem. Sacodem as penas de pele de porco, os ossos de porco, os focinhos de porco, e gralham, correndo, com as patinhas cravadas no solo, como doidas, atrás de comida: um bife acebolado do cartaz da churrascaria que vende pizza. Não se importam com a não resposta ao seu gralhar e se preocupam ao ouvirem o eco do som que fizeram naquele silêncio sem fim. As gralhas, em vôo, recortam o sol e perfuram a noite imensa e vazia. No solo, ouvindo o estrondo da cidade em agitação, enquanto Mozart seleciona Bee Gees no alto-falante da igreja, homens, mulheres e crianças correm de um lado a outro, procurando-se. Ao se encontrarem, retiram dos bolsos, carteiras e pastas, espelhinhos, e acendem imensos charutos para celebrar o renascimento. Depois voltam a correr; batem-se uns nos outros, desviando-se. Os mais pesados, fortes e gordos gemem de dor. Os menores e mais leves, aprumam-se e estufam o peito, impondo respeito. Miúdos, os gigantes soluçam de alegria ao oferecerem a mão para ajuntar os mais fortes, e os puxam para baixo, enterrando-os cada vez mais nas calçadas. Somente com as cabeças de fora, reviram os olhos, esticando as pernas, e assim, ali, sem quase se mover, giram o mundo com um pequeno esforço, enquanto de suas testas pingam gotas de suor e sangue. Como um ás de espadas, molemente intranqüilo, espero alguém passar com o guarda-chuva aberto, para me dar carona: quero voltar aonde estou.
(O texto a partir do segundo parágrafo foi publicado originalmente no Mecânicos de Guarda-Chuva, um blogue de escritores de Concórdia, SC, em 4 de Julho de 2007)
Estou na esquina como um valete de copas. Intranqüilo, fumo um cigarro e puxo o tricô da sacolinha de plástico. Tranço as agulhas, desenozando a lã milimetricamente arrumada no novelo por uma máquina moderna de 1898. Quanto mais desfaço, desentrelaçando e pondo em duas retas paralelas metros e metros de lã, maior fica o meu blusão. Quase já nem serve em mim, de tão pequeno. Espero a chuva, que se anunciou num clarão de luz no horizonte, mas que logo se foi quando as nuvens negras, pesadas e grossas se ajuntaram sobre o lago, espelhadas num céu azul de anil. Não tem movimento na cidade deserta. Mais um carro passa a mil por aquela reta. Espatifa-se no muro e continua andando sem diminuir a velocidade. O motorista acena para o vazio, mandando, sorridente como em sua noite de núpcias, ninguém tomar no cu, e é vaiado pela platéia que comparece, alinhada e rota, àquela cerimônia fúnebre. O carro se vai, espalhando fumaça e poeira do asfalto, contornando a praça do centro da cidade em que a periferia toma conta, bebendo cachaça. Ao som da sinaleira da Leonel Mosele com a Marechal, dançam salsa, e com suas roupas de pingüim, esvaem-se em contorções de valsa. Sobre o imenso capim da praça, rente ao chão, as gralhas simulam o primeiro vôo, uma batida estratégica de retirada, voltando ao ninho para matar a saudade de um lugar que nunca saem. Sacodem as penas de pele de porco, os ossos de porco, os focinhos de porco, e gralham, correndo, com as patinhas cravadas no solo, como doidas, atrás de comida: um bife acebolado do cartaz da churrascaria que vende pizza. Não se importam com a não resposta ao seu gralhar e se preocupam ao ouvirem o eco do som que fizeram naquele silêncio sem fim. As gralhas, em vôo, recortam o sol e perfuram a noite imensa e vazia. No solo, ouvindo o estrondo da cidade em agitação, enquanto Mozart seleciona Bee Gees no alto-falante da igreja, homens, mulheres e crianças correm de um lado a outro, procurando-se. Ao se encontrarem, retiram dos bolsos, carteiras e pastas, espelhinhos, e acendem imensos charutos para celebrar o renascimento. Depois voltam a correr; batem-se uns nos outros, desviando-se. Os mais pesados, fortes e gordos gemem de dor. Os menores e mais leves, aprumam-se e estufam o peito, impondo respeito. Miúdos, os gigantes soluçam de alegria ao oferecerem a mão para ajuntar os mais fortes, e os puxam para baixo, enterrando-os cada vez mais nas calçadas. Somente com as cabeças de fora, reviram os olhos, esticando as pernas, e assim, ali, sem quase se mover, giram o mundo com um pequeno esforço, enquanto de suas testas pingam gotas de suor e sangue. Como um ás de espadas, molemente intranqüilo, espero alguém passar com o guarda-chuva aberto, para me dar carona: quero voltar aonde estou.
(O texto a partir do segundo parágrafo foi publicado originalmente no Mecânicos de Guarda-Chuva, um blogue de escritores de Concórdia, SC, em 4 de Julho de 2007)
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