sexta-feira, 18 de março de 2011

Cheque-mate

É hora de trabalho
Mas ninguém apareceu mais uma vez

Eu sei o que é a solidão
Não porque estou só
Mas porque estou abandonado

Enquanto grito e esperneio
Entre e para os poderosos
Para que me possam ver como sou
E então possam ver todos os outros iguais a mim
Também vejo que ao meu redor os espaços
Vão se enchendo de nada
Ainda há marcas dos pés dos que por aqui andaram
E naqueles lugares agora restam simbólicas ausências

Penso que existo pelo meu princípio
Assim como por ele sou negado

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Normais e loucos

os que moravam no Norte seguiam
para o Sul em ônibus apertados
e fedorentos

os que moravam no Sul
corriam pelas ruas sem perceber
as pequenas e as grandes coisas do caminho

doidos

perdiam os horários de chegar e partir
e de entrar e sair do amor
do almoço
do banho
de pegar na mão e beijar na boca

os normais estavam na Hercílio

um falava sozinho
apontando o dedo para além
o outro dependurava-se nos postes
e ria de se esborrachar dos doidos perdidos

domingo, 16 de janeiro de 2011

Passeio na chuva

Choveu impiedosamente
a água lavou a Hercílio Luz
e as janelas entreabertas do paredão

com a chuva fui ao posto de gasolina
molhando sapatos e as canelas
e olhei pra mocinha atrás do balcão
que não soube ao certo o que eu queria

nem eram 11 horas da manhã
e todos já estavam sob as marquises
como todos os domingos em que vivem
e eles vão se contando
ou melhor
subtraindo aqueles que ficam pelo caminho

choveu amorosamente
espantando os turistas das praias
e levando-os aos passeios com ar-condicionado
e estacionamentos pagos

a água lavou a Hercílio e as mesinhas de xadrez
e eu voltei para casa com as canelas molhadas
e com 20 cigarros no bolso