sábado, 17 de dezembro de 2011

No rastro da poesia

Chegava a 34 ºC às 15h de 16 de dezembro de 2011. No centro de Florianópolis, as pessoas disputavam os raros pedaços de sombras das marquises. As lojas estavam cheias. As mulheres abanavam leques improvisados enquanto aguardavam a fila do caixa andar. E ela andava bem devagar. Para fugir do tremendo calor e da dor nas pernas, entrou em uma livraria e foi acolhido por uma onda de ar gelado. Não eram muitos os que dividiam o ar condicionado. Havia vendedores disponíveis em todos os setores. Foi direto para a estante giratória dos livros de bolso. Olhou uma; girou. Duas; girou. Três, e ficou desconsertado: nenhum livro de poesia! Mas não saiu triste da livraria. Recompôs-se do calor e ouviu uma vendedora dizer à chefe que sairia mais cedo. Batera a meta do dia. Vendera R$ 7 mil em livros! O homenzinho sonhou: por isso não encontrou livro de poesia na estante.

Eu vi um rio na Hercílio Luz

cada vez mais lento
vai apertado pela engenharia
vai espremido pela modernidade
vai entupido de sobras da humanidade
vai sufocado por gigantesca parede - concretoferrotijolo
vai quase morto
na busca de uma saída

se maré alta e vento Sul não lhe batem
extravasa na baía
e foge da solitária prisão
e quase pode respirar outra vez
e mesmo moribundo agora tem o mundo para além das escotilhas fechadas a ferro pelos operários da Prefeitura

(se acabe no mar
rejeito da humanidade
e conte a todos cada curva do curto cortejo)

pretume nojento
guarde volume e força pra desaguar no mar
enquanto bebo minha cerveja e aprecio pernas torneadas e bronzeadas aos sábados pela manhã protegida pelas sombras do Paredão

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O Sol Também Se Levanta de Madrugada

 (Do livro Poemas e Outras Artes dos Sentimentos, para os trabalhadores da Sadia-Concórdia)

Se erguem calados
antes que o Astro se levante
e mais cedo cruzam a cidade
como uma procissão silenciosa na madrugada
e antes que a luz pinte os vitrais milcoloridos das igrejas
se enfurnam na escuridão de fumaça e gelo
e das facas que vibram nas juntas moles dos porcos e das aves
no empacotamento de tripas metricamente servidas
e exclusivamente impermeabilizadas
e eternamente lustras
e sofisticadamente dedetizadas

se esticam numa volta ao mundo

e sem que eles vejam
o mundo se foi

se erguem calados mais uma vez
os braços extasiados
o corpo exaurido
as mentes atonitamente caquéticas

voltam de onde partiram
cortando a luz
que não tem fumaça e gelo
não tem mais graça tanta a dor
que o corpo esmaga

e sem que eles vejam
o mundo se foi

rumam rumo ao sono
porque dormem num respiro profundo
já que tanto ar faltou antes
e sonham com a madrugada que vem
e no sonho se erguem
cortando as ruas da cidade

e sem que vejam
o mundo se foi

todas as noites

sonham o mesmo sonho
e nele jamais vêem crianças no parque da praça